quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

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    Em seus dedos dançavam a coluna de luz que se propagava na escuridão da noite, a única luz capaz de cortar aquele manto expeço entre as árvores. De noite era mais como se os troncos grossos e curtos tivessem se tornado mais sombrios e a terra úmida e fofa se liquefizesse por completo tornando a imagem em um pântano de confusão, medo e dor diluído no ar. Era só um jogo das partes da mente que se podia se enganar. No alto só se podia ver a lua por pequenas falhas na folhagem. Era como se noite cheirasse à morte e chamasse a tristeza.
    Ele desligou a lanterna e fechou o livro que lia. As folhas, cheias de tinta, impressas em uma maquina em algum lugar que não importava mais estavam molhadas pelas gotas salgadas das lagrimas que percorriam aquele rosto jovem. Elas, as lágrimas, desciam pela sua pele deslizando e  a cada milímetro que se locomoviam puxadas pela gravidade faziam a aura de seu corpo pesar, como se a mesma gravidade das gotas exercesse uma força muito maior nos músculos. Ali, em meio a pouca luz que conseguia ultrapassar a relva, puxou outro conjunto de folhas, porém essas não marcadas pela tinta. Outros olhos não poderiam enxergar as letras que novamente os dedos dançantes construíam, mas esses os viam com perfeição. Era uma história, um conto, o último, quem sabe?
    A cada palavra, seu coração pesava como as nuvens que deslizavam sobre o chão e a folhagem morta já caída ao chão em função do tempo. A escuridão ia tomando conta de seu coração e ele tentava expurgá-la para fora por intermédio de suas palavras, mas ela não queria sair. Talvez fosse parte da luta eterna que o coração trava dentro de si entre o consciente do sofrimento e o inconsciente da felicidade, sempre em busca de um equilíbrio que nunca se é encontrado.  As palavras acabaram e as folhas haviam se terminado. Estava pronta mais uma obra que deixaria a cicatriz do tempo não somente exposta em sua pele para quem vice com os olhos, mas também as do coração visíveis somente para quem é fardado pelo destino a ver e sofrer. Aquelas palavras significavam algo cujo significado ele não conseguia decifrar mais, pois tudo o que queria dizer ainda estava dentro dele. Temia que suas palavras não fossem o suficiente para expor tudo aquilo que o aprisionava por dentro.
    Escondeu com as mãos o rosto, como as crianças que choram em frente a todos, mas ainda assim se escondem atrás da parede indestrutível de suas mãos. Era na tentativa de conter a dor e as lágrimas, mas não conseguiria. As folhas à sua frente – molhadas por aquelas gotas de tristeza – o perturbavam. Levantou-se e gritou, gritou tão alto e fundo que a própria noite o olhou, com pena. Amassou as folhas e deixou com que elas deslizassem pelo ar e tocassem a terra. Estranhamente, elas estavam em frente ao pequeno encosto de pedra a qual ele havia se apoiado. Ele se ajoelhou sem conseguir sentir mais seu corpo, a gravidade havia se extinguido. Ele tocou as letras da lápide a sua frente lentamente com a alma em desespero. Por minutos, parado ficou com a mão sobreposta à lápide apenas olhando.
    Os únicos movimentos viam de seus olhos que piscavam a cada vez que uma gota a mais desabrochava e se desprendia de sua pele, se perdendo no ar escuro da noite, levando junto a si cada sopro de vida que lhe restava entre suas células. Sua imagem desaparecia junto à noite, suas células e músculos deixavam com que a quase nula luza do luar atravessassem sua essência.  Enquanto os últimos minutos da noite iam se definhando pelo tempo, o corpo sólido do rapaz que passara a noite a escrever e chorar ia perdendo a sua imagem, até a noite encontrar seu fim a luz do sol que tocou o resquício de cores que ainda possuía e tomou por completo sua solidez, transformada em nada que se pudesse perceber com os glóbulos oculares do corpo.


    O calor do sol ainda era inexistente no início da manhã da manhã turva e com cheiro de terra molhada. A neblina que havia encoberto tudo que se podia encontrar próximo ao cemitério ainda estava presente e mais expeça a cada segundo. Por isso, a única percepção possível talvez fosse a dos distantes passos delicados, porem melancólicos de quem caminhava em direção a alguma lápide. Cortando as moléculas de água suspensas no ar, com seus cabelos castanhos claros e a fisionomia da morte - morte está que atinge indiretamente por outro, destruindo as partes de quem a pessoa mais se orgulha, os sentimentos ao qual mais se procura preservar. Ela chorava, mas procurava manter seus olhos encobertos pelos óculos escuros que permaneciam discretos usados em conjunto ao negro das roupas que ela vestia.
    Nas mãos as flores negras e brancas se misturavam em um buque fúnebre que fora colocado com carinho em frente à lápide que sinalizava onde o seu coração havia sido sepultado. Os joelhos delicados tocaram a terra fofa ao mesmo tempo em que, do céu, as gotas caíram fortes e grossas molhando-a e a tudo com a frieza e tristeza que apenas as chuvas dos cemitérios podem carregar. As mãos alisaram a pedra da lápide onde as letras se formavam e com a boca seguiu as escrituras proferindo as frases que ganham sentido apenas após a visita inquietante da morte.
    -Porque em pessoas como ele que foi em quem Deus lançou a maldição de amar. Aqui jaz quem com a alma escrevia.
    A última lágrima caiu e se confundiu com a chuva. A amada se levantou do tumulo de quem amou e deu as costas. Preferiu olhar para o chão, com medo de olhar para frente e não vê-lo sorridente ali, pronto para abraçá-la e beijá-la. As pernas agora se encontravam presas pela gravidade que impede com sua força inconstante o ser de se movimentar quando mais precisa fugir de sua melancolia. Percebeu as folhas que roçavam em seus pés pedindo-lhe atenção. Ela as pegou molhadas e as juntou, formando o conjunto branco e ligeiramente grosso de papeis escritos pelas mãos cuidadosas de quem escreve. Ela simplesmente se sentou, apoiando-se na lápide, e passou a ler. Lia, lia e sorria, sorria e chorava, chorava e pronunciava as palavras que formavam frases, que formavam parágrafos que formavam aquela ultima história que no fim dizia que por mais que não queiramos, existem coisas que precisamos deixar ir, porém sempre haverá algo que permanecerá em nós de alguma forma, forma essa que nem o tempo pode dissipar.
    -Você sempre me foi o suficiente. Nunca houve o que temer.


Por Pedro Nunes Rodrigues

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Memórias

Jaz dito nestas flautas dengosas,
Violões, sinos, harmoniosas:
“Já morto neste solavanco,
Definhando-me os doces,
Os sentires, amores.
Sorte é quem tem
Fiel afago,
Pois em leito
Lembranças.
Passo.”





Por Pedro Nunes Rodrigues

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Apenas um sonho


Seus olhos não pareciam os mesmos. Ela via tudo de apenas uma cor. Uma única cor. De início, era tudo preto, tão preto que nem ao menos distinguia os objetos á sua frente. Aos poucos, a tonalidade do ambiente foi se modificando, até ficar como uma antiga foto preta e branca. Era um equilíbrio perfeito, dando ao ambiente em perfeita harmonia. Caminhou entre o jardim em que se encontrava, notando que era a única forma que possuía cor. Havia alguns bancos de madeira espalhados homogeneamente, junto á algumas árvores organizadas como um círculo. Para completar, centenas de flores de pétalas diferentes, no entanto, todas com uma coisa em comum: a cor, ainda eram todas negras. Aos poucos, ela sentiu o que parecia a saudade e em seguida, a esperança de voltar ao seu mundo antigo. Junto àquela emoção, o ambiente também começou a ser recheado com um verde, aquele verde belo das folhas da árvore, do caule das plantas e da grama rala. Voltou a caminhar pelo grande jardim, circulando as árvores e tentando encontrar alguma outra pessoa. Tentava acordar do seu sonho. Ou pelo menos, achar algum sentido para ele.
Seus pés bateram de modo desajeitado em uma raiz, fazendo com que a menina caísse sobre a grama macia. Não se machucou, mas ouviu algo como um trovão quebrando o céu e em seguida, a cor marrom preencher o ambiente. As árvores possuíam as cores completas e os bancos pareciam mais vivos, até mesmo mais resistentes. Levantou-se, percebendo que nem mesmo com o susto da queda havia sido acordada. Foi até um dos pequenos bancos, sentando-se no mesmo e encolhendo de modo que pudesse abraçar os próprios joelhos. O único som ouvido até então era o do trovão e nada mais. Era como se estivesse em um silêncio profundo que nem mesmo sua respiração conseguia quebrar. Tentou falar, mas não conseguiu. A fala não era algo que pertencesse àquele lugar.
Começou a se sentir sozinha, como se fosse á única no mundo. Como se o apocalipse finalmente tivesse chegado. Levantou-se com os olhos cheios de lágrimas e foi caminhando até o que deveria ser um caminho de pedras. Parou sobre um quadrado de granizo, ficando sobre ele e pensando se deveria segui-lo. Talvez possuísse alguém em seu fim. Uma lágrima escorreu pela sua bochecha e pingou sobre o local, liberando o que deveria ser a cor cinza. A sua solidão. Todo o granizo se preencheu com aquele tom. Era por lá que ela deveria seguir. Aquele era o seu caminho; o de quem anda só. Pulou de quadradinho em quadradinho, tentando em vão se animar e voltando para um círculo como o de antes. Mas neste, possuíam apenas rosas. Rosas brancas, sem cores. Rosas cinzas esperando algo para colori-las e tira-las daquela solidão. Ajoelhou-se ao lado do arbusto, levando seus dedos até o caule da planta prestes á tirá-la. Sentiu um espinho perfurar seu dedo, fazendo-lhe sentir uma grande dor. Porém, não era dor física. Era uma dor no peito. Era o amor ardendo em seu peito. O corte começou lentamente a sangrar, deixando uma pequena gota cair sobre a rosa que antes esperava ser. Junto á toda aquela dor chamada amor, algumas das rosas foram pintadas, tomando a cor do sangue da jovem. Mais lágrimas escorreram por sua bochecha, no entanto, elas já não coloriam nada. Ao menos seu sangue havia servido de algo. Agora, ela tinha um jardim de rosas brancas e vermelhas, todas juntas em uma perfeita harmonia.

A dor em seu peito não parava, pelo contrário, ficava ainda mais intensa. Levantou-se e começou a correr, passando de leve as costas da sua mão sobre a bochecha, tentando conter as lágrimas. Correu o mais rápido que pode. Correu até seus pés não agüentarem mais. Correu tanto que se esqueceu do machucado em seu dedo e quando se lembrou do mesmo, sua mão já estava encharcada de sangue. Agora, só havia um vasto campo de grama, com um rio há poucos metros. Usou suas últimas energias para chegar até o rio, parou na beirada do mesmo e preparou-se para lavar sua mão com água sem cor. Era tão transparente que quase não era possível enxergá-la. Aquele mundo ainda não possuía o azul. Colocou a mão sobre o rio, sem sentir nem ao menos o toque da água sobre a sua mão. Podia ver o sangue manchar o rio com toda a sua dor. Sentiu-se tonta, cansada e atordoada.
Seu corpo amoleceu e foi parar dentro do riacho, sendo engolida pela água transparente. Para sua sorte, havia conseguido recuperar a consciência á tempo de colocar os pés sobre o chão e não ser carregada pela correnteza. A água do rio passava entre seu corpo, mas não era o seu físico que ela sentia-se lavando. Todas as suas emoções foram levadas e junto delas, a sua cor. Agora, era ela quem não representava nada naquele mundo. Pensou ter ouvido o som da água enquanto a cor azul preenchia o céu e o líquido cristalino do local. Saiu de dentro do rio, sentindo suas vestes completamente secas – o que era extremamente anormal ainda naquele mundo. Ela já não possuía machucados, nem cor, nem emoções. Era apenas um corpo vazio, sem vida e com uma alma solitária. Novamente um trovão, mas nenhuma nova cor, afinal, tudo á sua volta já parecia colorido. O céu, a grama e o riacho. O som vinha do céu e eram nuvens negras carregadas de chuva. Não teve tempo de correr nem de se esconder e logo o céu desabou sobre a mesma. Agora, não eram apenas os tons que preenchiam o local, mas também, os sons. Seus passos sobre a grama, das gotas caindo sobre corpo e até mesmo de seu respirar.
Abraçou a si mesma, tentando se consolar diante da situação. Frio. Começou a sentir frio, uma sensação também nova para aquele lugar. Seu tato havia sido devolvido e aos poucos, sentia suas emoções voltarem a fluir como a água. O mesmo que havia lhe limpado, tirado todas as suas cores e dores, estava lhe devolvendo. Mas agora, ela se sentia mais viva, com o cabelo mais ruivo do que antes e as emoções mais intensas. Estava feliz por estar ali, longe de todo o mal do mundo, onde ninguém podia lhe tocar. Diante de toda aquela felicidade; daquela emoção nova para o local, notou o amarelo se espalhar, criando um sol que aos poucos sumiu com toda a chuva. O frio se transformou em calor. A felicidade em compaixão. Não se faltava mais nada naquele lugar, pois aos poucos, novas cores pareciam preencher cada mínimo objeto.
Roxo. Laranja. Rosa. E milhares de outros tons completaram o que faltava em seu jardim. Em sua vida. Outro som invadiu o local, mas não era como os outros, esse era como um chiado que incomoda o ouvido de qualquer um. Tentou não escutar todo aquele barulho e começou a ficar com medo. Fechou os olhos querendo acordar, mas não conseguia. Estava presa ali, em seu novo mundo. Concentrou-se, porém, nada aconteceu. Começou a sentir sua cabeça latejar e abriu os olhos, vendo todos os objetos á sua volta tremerem diante o som. Aos poucos tudo foi sumindo, virando fumaça. Em segundos o local estava completamente tomado pelo mau cheiro. Seus olhos queimavam e se sentia ficando surda. Seu mundo acabava lentamente, junto de toda a sua felicidade. Junto ao seu corpo, que ia perdendo os órgãos. Perdendo suas emoções. Até mesmo sua alma parecia querer fugir daquela tortura. Foi aí que tudo acabou, como se nada fosse importante, como se sua vida não valesse á pena.


Por meu grande amigo, Guilherme Scardua Dellacqua

sábado, 16 de julho de 2011

Mar Alto

    Aos poucos a iluminada face do dia se escondia, engolida pela escuridão das nuvens. O ar úmido condensava-se as alturas do céu encobrindo o mar com a chuva grossa. Suas gotas desciam com tal velocidade que doíam ao tocar a pele. O vento - antes manso e acalente - era como navalha rasgando a pele e arranhando os ossos. A tempestade caia podendo levar fracos homens à hipotermia facilmente. E em meio as ferozes ondas, Pedro e Catarina XIII surgiam como suicidas perante a natureza sobre-humana.
    Catarina, velha senhora, pertencia ao pai de Pedro e fora passada a ele hereditariamente. Em virtude a sua idade, ela não suportaria por muito mais tempo a força do mar e do ar. Pedro tentava manter-la firme e superar as cristas. O casco – já rachado de quando fora arremessada as pedras – rangia a cada baque de cada onda. Catarina já era incapaz de suportar. A água infiltrava, o mastro se torcia e rompia e as ondas, sem piedade, investiam segundo após segundo, sem propor rendição, sem lhe dar um pouco que seja de ar para que possa respirar. A morte de Catarina não seria honrosa, lenta e nem majestosa. A última onda fora cruel, com seu tamanho mais avantajado do que as anteriores. A embarcação fora engolida completamente, voltando à superfície sem nenhum ponto ainda intacto. Pedro, impotente, se agarrava a ela, agora. Mais uma fenda fora aberta na madeira velha fazendo com que ela afundasse a bombordo em questão de segundos. Catarina XIII chorava e rangia em quanto ia ao encontro do fundo do mar.
    Pedro – lançado ao mar pelas ondas – observava o presente de leito de morte de seu pai perder as forças, derrotada e digerida pelo mar. Futuro agrado a Poseidon, agora. A deriva, o homem não possuía mais nada. Era pescador e, como todo pescador, sua sobrevivência dependia do mar e de seu modo para trafegar sobre ele. Dos dois, um havia se perdido eternamente e o outro se rebelado.
    Sozinho, ele deveria encarar o mar. Era apenas um homem a enfrentar toda a lâmina d’água rígida e impiedosa. Os paredões de mar se formavam brincando com ele, torturando-o. Em poucas ocasiões ele era capaz de por suas narinas na atmosfera inspirando com dificuldade o ar e as gotículas da chuva. Até sua respiração o torturava, pois a água salinificada adentrava por vezes em suas vias respiratórias arranhando a traquéia o que fazia sua respiração lhe causar dor mesmo que no disperso ar. Seus ossos, juntas e dedos doíam em função da temperatura quase negativa da água do mar. Nem o choro lhe era permitido, pois os olhos abertos serviriam como mais um presente para a natureza poder torturá-lo ainda mais.
    Aquele era o seu inferno pessoal. Pedro preferia uma morte rápida, porém sua vida se dissipava lentamente. A fúria do oceano era implacável e ria da dor do pobre pescador. O sofrimento o tomava, seus sentidos se perdiam. Cada elevação do mar o acertava com a força de um trem, tirando dele o ar, a vida. Mesmo sem ver, falar, ouvir ou respirar, era capaz de sentir naqueles minutos mais longos de sua vida, toda a dor que a natureza poderia lhe infligir.
    Seu corpo em escuridão plena. O ar havia se perdido por completo e líquido regia o seu lugar em quanto afundava sem lutar. Os segundos sufocantes antes do fim lhe impediram de pensar. Tudo se perdia: a consciência, a essência. O funeral seria ali, no mar, junto a sua amada Catarina XIII. Adeus Pedro; adeus Catarina.


Por Pedro Nunes Rodrigues

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Soneto da devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!







Por  Vinícius de Moraes

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Soneto do Despranto


Soneto do Despranto


E arde o sol ao rosto deste
Desgraçado, que vida em pranto,
Sem ter esperança que possa-lhe
Desvirtuar todo este manto.

Em quanto espera lua chegar,
Assaltar toda essa mágoa
Intrínseca ao foco no olhar,
Ponderado ao modo de andar.

Quando este devaneio cessar,
Livre calma alma se tornará,
Feliz de novo estar a sonhar.

E arde o sol ao rosto deste
Graçado, por andar sobre este
Passado estorvo desgraçado.



                                                       Por Pedro Nunes Rodrigues

terça-feira, 1 de março de 2011

Última carta de amor e ódio



Ei,


    Não sei como começar isso, não sei nem o que começar a dizer para você tudo o que já foi dito, mas espero que entenda agora, isso já está além do meu controle. Eu realmente sonhei com você, realmente te quis, quis a sua alma, assim como dei a minha de livre e espontânea vontade, porém, não foi o suficiente para você não é? Ou melhor, foi até demais, não foi? Eu realmente te amo e realmente te amei, mas sofro como se minha chegada ao inferno tivesse sido antecipada pela sua simples ação de me dizer adeus primeiro. Sabe o que eu digo para você agora: “Adeus”. Um dia, tenha certeza, você amará alguém (e digo isso se referindo a uma vaga lembrança que você terá de nós) e sentira toda a dor que eu sinto nesse momento. Não sei se isso é uma previsão ou uma maldição que rogo sobre você, mas ainda quero que você saiba tudo o que fez. Muito além que as dores do corpo (como a cicatriz que você fez em meu pulso e a vontade de abri-la novamente) são as dores que você me fez sentir em minha alma, que agora, sempre estará marcada pela sua presença desconfortante e iluminadora. Todos os sentimentos que sentimos juntos foi apenas uma calmaria antes da tempestade que me sugaria para baixo do solo, e não diga que a culpa não foi sua. Tanto minha como sua é a culpa, mas agora, quem mais sofre não é você, pois quem amava mais não era você, e isso é o que te permiti seguir em frente e me deixar aqui nesse frio inverno sozinho. Você foi quem tinha trago o sol, e você o levou, me deixando apenas com um resquício de calor que ele tinha me dado. Agora? Agora eu procuro um aconchego nas lembranças que restaram, como quando estávamos em minha cama, abraçados e nos beijando e fora daquelas portas e janelas não havia mais mundo algum. Você se lembra disso? E não me diga que aquilo não foi real, pois eu só estive em seu coração em um breve momento de fúria, mas pude sentir parte da verdade quando fiz isso. Mas foi você quem quis, foi você quem quis quebrar o laço que nos uniu, e conseguiu, deixando apenas uma sobra, um fantasma ainda forte e denso que me prende a você e faz a dor cada vez penetrar mais no fundo de minha alma. Sabe o motivo de eu escrever apenas está carta antes do último ato sendo que poderia escrever para meus pais, meus avôs, meu irmão e meus amigos? O motivo de apenas escrever para você é a culpa e por que eu sempre escrevia somente por você tentando fazer você feliz com cada gesto, cada sorriso, mas volto a dizer que você não queria isso, você prefere estar longe e olhar de longe, em quanto poderia ter tudo perto de você. Cansei de derramar minhas lágrimas, e agora, irei derramar meu sangue para ver se encontro algum destino. Vá e escolha quem você quiser, use quem você quiser, mas um dia você irá lembrar, eu sei que irá lembrar, e se arrepender, pois não estarei mais aqui e em nenhum lugar pertencente aos vivos. Está vai ser a minha última carta, de quanto eu te odeio e de quanto eu te amo, e como ainda te amo.


Veremos-nos no inferno (ou não),
Adeus!










                                                                                   Por Pedro Nunes Rodrigues

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Roleta russa

Uma sala de madeira, talvez carvalho, um estofado velho, porém, elegante, cores escuras e apenas uma lâmpada acesa iluminando tudo com sua fraca luz. Só uma janela era visível mais fechada e com suas cortinas estendidas ao máximo que lhes era possível, como quem estivesse ali dentro não quisesse mais a luz, e só a escuridão o lembrava que algo ainda podia ser real. Uma mesa de madeira e uma cadeira se encontravam ao canto sul, em frente a uma porta dupla fechada a chave ao lado norte da sala. Quadros elegantes estendidos ao logo das paredes, provavelmente comprados em leilões por partes diversas do mundo. O silêncio reinava, exceto por a quase inaudível voz dele ao telefone, tentando sufocada e desesperadamente salvar algo que não havia salvação. Seu terno antigo e favorito estava amarrotado em seu corpo magro e definhado e em seu rosto pálido se destacava as lágrimas frias e salgadas. Em cima da mesa estava o telefone ainda de décadas antes de sua época, ligado a um fone segurado pela mão quase sem forças para manter-lo estendido a altura de seu ouvido. Em sua outra mão, se encontrava o revolver frio e ainda virgem de sangue.

Sua voz ainda falava em alguns poucos intervalos de tempo dizendo falas sem

sentido para aqueles que não possuem um coração ferido e enrustido de dor. “Mas a eternidade não é algo que exista e às vezes, o amor não é recíproco” dizia a voz no outro lado da lin
ha um segundo antes de desligar o telefone. A voz dela era fria e gélida, como quem não se importasse com o que poderia acontecer a ele em seguida, e talvez ela realmente não se importasse. A leve e calma respirada dele foi o único som que se podia ouvir após o telefone ser desligado e jogado ao chão com tristeza oculta pela raiva que ele demonstrava. Em cima da mesa agora, só restava uma única bala, um único projétil quieto e silencioso que gritava na mente dele. Um copo de uísque preparado e tomado lentamente e em sua mão o projétil se encaixava em uma culatra do tambor, deixando as outras quatro vazias.

O som do tambor se fechando e sendo girado mal se era audível ao ouvidos que não queriam escutar mais nada. Seus olhos fixavam-se ao teto em quanto o tambor parava aos poucos de girar e sua mão estendia a arma lentamente. O cano deslizou sobre sua pele e seu rosto até a lateral de sua cabeça. O tambor parou, mas ele não queria saber onde o projétil se encontrava. Era o modo dele saber, se era a vida ou a morte a quem deveria obedecer. Era o modo de ele encontrar o fim, a paz, pois sabia que encontrar-la de ali em diante seria uma tarefa impossível de ser realizada por suas próprias mãos ou pelo seu coração. Fechou os olhos e respirou bem devagar sentindo o dedo deslizar pelo gatilho liso e frio. As mãos tremiam e as lágrimas desciam cada vez mais. A luz se tornava cada vez mais escassa e a temperatura parecia cair a cada lento segundo. Uma última lágrima tocou o chão e a arma fora disparada, para a vida ou para a morte.


Por Pedro Nunes Rodrigues

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Menestrel

Você aprende...

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se. E que companhia nem sempre significa segurança. Começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas.


Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.


Aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é ince

rto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.



E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.



Descobre que se levam anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la… E que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.



E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos de mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam…



Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa… por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.



Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa aonde já chegou, mas para onde está indo… mas, se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve.



Aprende que, ou você controla seus atos, ou eles o controlarão… e que ser flexível não significa ser fraco, ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem, pelo menos, dois lados. Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática.



Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se. Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou.


Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens… Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.



Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.



Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém… Algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga você será em algum momento condenado.



Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, em vez de esperar que alguém lhe traga flores.



E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!

Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar.





Por William Shakespeare

domingo, 17 de outubro de 2010

O Escritor



O sereno da noite cobria toda a folhagem da grama de pequenas gotículas de água. O brilho do luar refletia a beira do riacho ao fundo. Embaixo da árvore de grosso tronco e folhas verdes que protegiam tudo sob sua guarda, da direta luz que a lua cheia emitia como se ela se orgulhasse desse fato. Os grilos cantavam - doces sons - e saltitavam na relva, próximos demais do caderno e da caneta que jogados estavam ao chão sobre folhas e gramas. Ao lado, ele se encontrava, com seu olhar calmo e sereno observando as estrelas que faziam do céu uma pintura conceituada. Seus cabelos negros e lisos não se moviam exceto quando as fracas rajadas de vento sopravam de leve seu rosto molhado de lagrimas. Seus pensamentos, mesmo que longínquos de onde seu corpo, agasalhado e protegido do frio, se encontrava, pensavam em algo igualmente belo, porém, de belezas distintas. Aquele local era o mais perfeito ponto dos jardins do paraíso em terra, mas seus pensamentos se focavam no que para ele era a própria Eva. Mesmo que a beleza de seu canto favorito do mundo sempre o deixasse pasmo, Ela ocupava todo o espaço que sua mente – e seu coração – era capaz de fornecer. A bela jovem não estava presente, mas sempre estava, como em tinta óleo, gravada em seu coração. Amor. Esse era o único sentimento que poderia descrever para Ela e suas formas perfeitas, desde a silueta de seu corpo até os traços de seu rosto, sem que se mencione de seu espírito puro, bondoso e inocente que poucas humanas realmente tinha a capacidade de possuir.
- Perfeita!
Sua voz era como um sopro fraco que o próprio vento era capaz de abafar. As flores, os animais, os sons. Por mais que ali fosse o próprio paraíso escondido em um pequeno canto do mundo mortal, o mortal ainda se encontrava perdido em sua tentação quase divina. Ora, o que és capaz de provocar tamanha atração, tamanha paixão sobre humana? Ele estava perdido, em sua própria mente, fissurado em um amor que já não se encontrava mais presente, mas que, não importasse quanto o tempo passasse, sempre estaria ali com ele, como se nunca o tivesse deixado.
Suas mãos, em movimentos tristes e apaixonados, deslizaram sobre o ar, alcançando o caderno passando a escrever com clama ao mesmo tempo em que o sorrio transparecia aos poucos em seu rosto. Cada palavra que escrevia era dedicada e capaz de lhe fazer lembrar sua amada, por mais que ela já não estivesse entre vivos. Escrever sobre Ela era, para ele, como se a ressurreição Dela deixasse de ser a ficção de sua mente, mas realidade – mesmo que em papel e tinta fresca.
- Sentirei sua falta, minha amada. Mesmo que ainda sinta seu espírito comigo, sua presença sempre ira faltar.
O papel se molhava de lagrimas que caiam de seu rosto, mas a caneta não parava com seu trabalho, pois essa, era a única forma de suprir o desejo de tela novamente.





Por Pedro Nunes Rodrigues

Am I Ugly !?










Cena
Filme: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O astrônomo

No início era apenas um céu estrelado para ser por ele estudado, estrela após estrela, todas iguais. Foi quando na constelação mais longicua, mais inóspita e sombria, ele a encontrou. Era simples, comum, mas algo chamava a atenção dele para a retraída estrela. Passou a somente estuda-la, queria entendê-la, começava a ficar obcecado e a cada noite ela o intrigava mais e mais. Em tão, sua luz começou a se espalhar com tamanha intensidade que era impossível ser real em sua concepção. Ate que finalmente descobriu o que á diferenciava: ela tinha um dom. O dom de aumentar seu brilho, de concentrar e dispersar sua luminosidade que o resto passava a ser apenas isso, “o resto”.
Ele realmente ficava obcecado com aquilo. Já não dormia, já não comia, só queria enxergar a beleza que alcançava seus olhos entorpecidos.
O fulgor, assim como chamas, não era por completo inocente e já começava a queimar. Tudo a sua volta entrava em combustão sem que ele pudesse perceber já que estava cada vez mais limitado ao que lhe fascinava. E a aparente claridade aumentava e aumentava até que chegou ao intenso ponto de se tornar um clarão que o cegava, embora momentaneamente.
Ficou desesperado. Como poderia viver sem seu ponto único e iluminado no céu? Mas a estrela ainda estava lá e agora não somente queimava ao seu redor como também derretia sua pele em manchas de uma veemente lesão por queima do mais alto grau. A dor era imensa e como reflexo, fugiu. Abaixou-se e observou apenas o chão ate que sua visão, turva, voltasse. Não queria voltar a enxergar, mas voltou embora ainda confuso. Após tempos, não queria mais se queimar, não queria mais estar privado de sua visão, por isso hesitava em olhar ao céu. Queria esquecer a antiga estrela, por mais que ela brilhasse.

Com olhar ainda embaçado, procurava fugir de seu fascínio, de seu vicio que, assim como drogas que são nocivas ao corpo, aquilo era nocivo a sua mente. Já alucinava, duvidava de sua própria sanidade mental por não ter sua dose da querida e facínora estrela.
Porém percebeu que agora, algo o envolvia algo o protegia e lhe ajudava a cicatrizar as feridas que nele haviam deixado. Finalmente, voltou a observar o céu à procura do que o protegia, quando percebeu aquele simplório foco de luz imerso a constelações mutuadas de outras estrelas e planetas sem nenhum valor. Apesar de pequena e escondida, era ela quem o protegia com essa aparência delicada e frágil.
Como tal astro, mesmo que tão crédulo e eclesiástico, era capaz de lançar tamanha aura protetora? A resposta era evidente. Um pequeno laço de amor é o suficiente para a maior das redenções.
Mas que surpresa. Seu mundo havia acabado de se desmantelar. Não fora capaz de perceber o que estava explicito a sua frente. Agora, ele se sentia leigo e laico.
Essa nova estrela que era seu verdadeiro fascínio e dessa vez, a fixação era recíproca, já que ao mesmo tempo em que reformulava tudo o que sabia e sentia, ela o envolvia por calmos ares, ao invés de feri-lo como um alvo fácil a um tiroteio. As cicatrizes ainda existiam, mas perdiam atenção para o coração que vibrava à nova prospera e benéfica luz que o revivia e animava.


Por Pedro Nunes Rodrigues

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Poesia

Mas uma vez venho a declarar uma poesia por mim escrita ao amar. Essa foi a descobrir que quando não escolhido fui, perdi a chance de ter o que me vem a sonhar. Mas tudo bem, vou proteger e recitar mais uma poesia aqui para vocês lerem e eu me desabafar.


Minha Ultima Memoria

Sei que de tudo que passamos
Em meu coração irei te guardar....
Nunca se esqueça,
Não importa o que aconteça,
Que se algum dia eu não voltar,
Quando morrer você estará la,
Pelo menos em meu coração
Em meio a uma mata qualquer,
Ou em uma céu sem visão do chão.

Talvez apenas o inferno alcansrei,
Mas já não ligo para qual será o fim,
Se apenas uma memoria sua me restar,
Feliz poderei ficar.


Por Pedro Nunes Rodrigues.

sábado, 28 de novembro de 2009

Espelho

Era noite. Lua, estrelas, nuvens, tudo se misturava na doce dança do tempo durante os segundos penetrantes. A casa estava vazia, quase isolada entre a multidão de casas iguais à mesma. Porém, algo a diferenciava hoje. Talvez apenas porque eu estava ali, sentado no sofá estofado de um couro sintético escuro, ao centro da pequena sala. Ainda assim, não me considerava alguém.

Meu peito nu tremia na baixa temperatura e, minha mão, segurava aquele instrumento que era arma de muitas utilidades. Utilidades que se preservavam até segundos, talvez minutos seguintes.

Meus pés se mexeram, estavam em movimento constante agora levando meu corpo bruto e sem nenhuma resistência pelo corredor escuro. A porta ao final esquecia-se aberta e alguém estava lá. Alguém que também andava, embora em minha direção. Passei o portal entrando no pequeno cômodo de luz desligada segurando cada vez mais forte minha defesa - ou meu ataque. O braço da imagem estava levantado, segurando a minha morte diretamente para mim. Não haveria defesa se meu corpo paralisasse como eu teria imaginando, mas meu braço também havia se levantado em minha defesa. Seria uma batalha? O ultimo momento de um homem?

As lembranças passaram em minha mente como flash bakcs, que sempre ouvi falar que apareciam durante o ultimo momento de nossas vidas. Minha infância - sofrida não por miséria, mas sim por um sentimento triste e reprimido - demorou mais tempo em minhas visões. Em seguida, vieram devaneios: momentos em que sonhos pareciam ter sido realizados. Meus amigos passaram rindo em minhas imagens mentais, felizes diante de mim em todas as nossas aventuras emocionantes apesar de não sentir meus lábios retorcidos em uma parábola que mostrava minha felicidade junto a eles. Então chegaram elas. Os dias em que senti o mesmo sentimento de hoje, os dias em que tudo de ruim estava sobre mim e percebi que eram mais dias do que eu imaginava, quase todos de minha vida. Não havia mais ninguém nessas lembranças... Amigos, família, ninguém estava presente na maioria dos dias. Todos me abandonaram. Não haviam dias felizes, apenas dias em que meus sentimentos eram recobertos por algo que não era verdade, algo que tinha acabado de perceber.

Meus olhos de repente adaptaram-se a pouca luminosidade e minhas visões foram quebradas, como uma criança que acorda e percebe que tinha acabado de ter tido um de seus primeiros pesadelos em sua vida. Vi o homem agora com olhos tristes e lacrimosos. O homem não olhava mais para mim, mas olhava para sua mão que tinha sido levantada de sua barriga avermelhada e úmida. Quando percebi, ele tinha acabado de se colocar em uma postura ereta e elegante, em quanto continuava a fitar para sua mão. Percebi também que eu fazia o mesmo como se estivesse o imitando, embora não estava atento ao detalhe de que minhas mãos estavam igualmente ensangüentadas. A realidade, então, finalmente me fez presente. Descobri que havia achado uma maneira de finalmente acabar com meus sofrimentos remotos e incuráveis. Um meio rápido de acabar com as cicatrizes em meu coração que, aos poucos, parava de bater com a evasão do sangue de minhas veias. O trágico momento do fim.

Meus olhos escureceram sem que eu fechasse minhas pálpebras e senti um estrondo irromper em meu braço esquerdo. O chão estava ficando molhado também, mas não conseguia ver se era meu sangue que o encharcava. A porta bateu e um grito soou meu nome. Deveria ser outra visão: a ultima.

De repente tudo se apagou. Desde o resquício de luz dos meus olhos aos poucos gostos e aromas que poderia estar sentindo. Nada mais era palpável ao meu tato. Era o fim de todas as minhas angústias. Um forte frio tomou conta de meu corpo por dentro e, depois, não havia mais nada.

Como se tivesse entrado ou saído de um sonho ouvi um choro, algo triste que me deixava arrasado por ter feito algo, mas não pude identificar o quê. Forcei com sucesso meus olhos a se abrirem para poder ver o que estava acontecendo. Era em um quarto branco que me via deitado, em uma cama nada macia. Havia apenas uma janela fechada e com sua cortina armada, dificultando a entrada da luz. Ao canto percebi sentada em um pequeno sofá uma moça linda, a mais perfeita que já havia visto. Ela estava com suas mão em seu rosto e com a cabeça abaixada. Era ela quem chorava.

-Pensei que as pessoas não chorassem no céu! Então aqui deve ser o inferno. Ou pelo menos o purgatório.

Minha voz era fraca, fraca demais e um tanto triste. Acho que em outro local e em outras circunstancias, não seria possível escutar minha voz. De repente a moça levantou e reparei que seu rosto estava mais amarrotado do que deveria e suas lagrimas já haviam deixado manchas sinalizando o tempo em que ela chorava.

Ela colocou-se de pé em um segundo e correu para meu lado. Tentei me levantar, mas não consegui. Olhei sue rosto melhor - agora de perto - e reconhecia quem era: a única pessoa que poderia me fazer feliz. A única pessoa que não apenas encobria minha infelicidade, mas a pessoa que fazia essa infelicidade tornar-se amor.

-Não. Você está onde deveria estar. Junto a mim! - Ela disse.

Escutei aquela voz perfeita que também havia me chamado antes de me sentir apagado e entendi tudo o que havia acontecido depois de meu fracasso. Fracasso que agora me deixava feliz e que espantava todas aquelas lembranças que pude visualizar novamente. Sobravam apenas as que me sentia como um Sol, ou melhor: como a Lua.

-Você é meu Sol. - Disse por fim.

A frase era perfeita demais para que seu significado seja compreendido facilmente por simples humanos, mas tinha certeza de que era essa a frase que eu queria usar.

Senti-me agora iluminado, como se o Sol e a Lua tivessem se encontrado num eclipse perfeito que duraria eternamente. Meu coração agora voltava a pulsar vivo, em quanto todo o amor e felicidade que me fazia esquecer minhas tristezas preenchiam o espaço em que meu sangue não mais ocupava em minhas veias e, principalmente, em meu coração.

O espelho havia se rompido agora, e a fissura em meu coração já se curava sem deixar mais marcas pela primeira vez.


Por Pedro Nunes Rodrigues

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Pontos

Um ponto, é apenas isso que consigo ver.
Não, não, são dois pontos, porém, estão tão juntos que parecem um só. Eles se amam.
Ops, existe um terceiro ponto, porém, este é branco, da cor do ambiente.
Ei, ei, ei! Um dos pontos avermelhados se separou, agora são três pontos.
O ponto vermelho se juntou com o branco! Oh não, agora o outro vermelho ficou preto.
O vermelho e o branco sumiram, agora só resta o preto.
O ponto preto está sozinho, abandonado. Ele se sente traído.
Tentar correr? Mas para aonde? Ele não tem escolha, terá que ficar ali agora, sem sua linda cor avermelhada e sua perfeita companhia.
Eles pareciam se amar.



Por Guilherme Scardua Dellacqua


terça-feira, 29 de setembro de 2009

O que me mata...

Você, meu amor, você me mata por dentro quando se faz de difícil. Quando te demonstrei o que era de verdade para saber se o que você era de verdade era o que eu amava. Mas bem, eu já sei tudo que quero, sei quem você é de verdade, sei o que você ama, e sei principalmente que te quero, por toda eternidade se para nós for permitido.
Todas as nossas conversas, nossas conversas que deixava por trás aparecer aquele sentimento que fluía em minhas veias. Sei que esse sentimento corre em você também, só não sei seus motivos para não podermos estar juntos logo. Talvez seus motivos sejam verdadeiros, assim como meu amor por você e seu amor por mim, mas te digo que não há motivos para impedir que duas almas se unam pelos seus laços sentimentais, muitas vezes mais fortes do que qualquer metal existente. Uma vez escutei uma voz em um lugar no fundo de minha mente em quanto estava ao seu lado, que dizia que pessoas são imãs, apenas imãs, e imãs tendem a ficar unidos. Assim como eu quero ficar unido a você.
Não mentirei, já sonhei acordado que sentávamos na praia durante uma noite escura sem sociedade a nossa volta, apenas nos dois.
Em quanto escrevo, penso em meus lábios tocando os seus lentamente, penso em seus lábios tocando os meus devagar, penso em nossas trocas de olhares, penso no frio que sinto na barriga quando vou te ver, ou em como meu coração acelera quando estou perto de ti.
Só peço uma coisa, meu amor, que você possa me amar livremente, sem seus motivos, porque eu já acabei com os meus. Não me mate com seu amor, faça-me viver com ele, por favor.



Carte de um homem que ama, a sua amada.
Fiz pensando em você.
BjoOs, te amo.
Pedro Nunes Rodrigues